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Ciber-debate, Variedades »
por Francisco Arlindo Alves
Sofrer ameaças de enforcamento por fundamentalistas nacionalistas hindus pode ser uma preocupação secundária em relação a estar defronte ao fundamentalismo dos direitos autorais de corporações da mídia?
Sexta feira à noite… Chovia torrencialmente no centro de São Paulo… Cheguei todo molhado. Consegui o 17º lugar na lista de espera da lotada sala de cinema do CCBB no Festival Animamundi. Felizmente aconteceram 17 desistências e consegui o último assento disponível da última sessão do dia. Foi sorte… Valeu a pena.
“Sita Sings The Blues” é um longa de animação da auto-intitulada “a mais amada cartunista desconhecida da América”. Nina Paley, a cartunista, animadora e diretora deste trabalho, se apropria e remixa criativamente diversas referências que vão desde fragmentos auto-biográficos, até o livro sagrado hindu “Ramayana”, épico sânscrito de 500 A.C. Tudo isso temperado com o charme das canções de Annette Hanshaw, uma das primeiras cantoras de jazz nos anos 20.
Em 2002, Nina Paley foi morar em Trivandrum na Índia, onde seu marido tinha arranjado um bom emprego. No decorrer de uma breve visita a Nova Iorque para negociar uma tira cômica que estava produzindo, recebeu um e-mail do marido terminando o casamento (a lá Sophie Calle). Em meio a sua crise pessoal, mergulhou na leitura do épico indiano, e no jazz de Annette Hanshaw, o que serviu de inspiração para desenvolver uma série de animações, até ter um longa metragem semi-acabado, tudo isso, apenas com o auxílio de seu computador pessoal. O resultado é uma animação que se desenrola habilmente em várias camadas, com duas estórias que se entrecruzam: Uma de caráter autobiográfico que mostra o término de um casamento moderno, e outra que descreve a história de amor da antiguidade indiana. O filme é um desfile de múltiplas técnicas de animação 2D, e consegue ser superior e mais engraçado que a média da burocrática animação 3D atual (que tem andado tão previsível e cheia de regras).
Pelo fato do Ramayana ser um livro sagrado, Paley recebeu ameaças de enforcamento, como reação de alguns fundamentalistas hindus ao filme. Mas este fato parece um problema secundário em relação a sua surpresa de que o pequeno custo do filme, tinha aumentado chegando a cifras de um quarto de milhão de dólares, em razão dos direitos de copyright das esquecidas canções de 80-90 anos atrás de Annette Hanshaw.
Os direitos de copyright viraram uma verdadeira prisão para o filme. Para distribuí-lo, teria que pagar as corporações detentoras dos direitos de propriedade das músicas, mas como não podia distribuir, não podia fazer dinheiro para pagar os direitos.
Princesa Sita de Nina Paley + Música de Annette Hanshaw
Então, Paley resolveu distribuí-lo por métodos não-convencionais, usando no campo do cinema estratégias usadas no campo do software livre. Liberou os direitos de copiar, compartilhar e reutilizar seu filme (exceto as músicas) como uma estratégia de divulgação. Agora Paley tem estudado sobre modelos de negócio alternativos (venda de camisetas, espaço no filme, contribuições dos fãs) para ganhar dinheiro com seu filme, pagar pela música de Hanshaw e sair da prisão do copyright.
A artista tem sido alvo de críticas que a acusam de não ter se informado antecipadamente sobre os direitos das músicas, antes de começar a produzir o trabalho. Mas Paley contra-ataca com a idéia de que artistas precisam ser corajosos e percebe a existência de uma cultura do “não use isso, e não use aquilo, não faça isso, não faças aquilo”. Como defensora de uma cultura livre, Nina Paley também escreveu e produziu a canção “Copying Isn’t Theft” (Copiar não é roubo) para ser livremente copiada remixada por outras pessoas no mundo. (Veja as versões)
Particularmente, penso que ser artista não é fazer as coisas certas, dentro dos melhores padrões e regras. Não, não é isso. É criar um certo ruído, e isso, Nina Paley está fazendo. A apropriação de algo existente para a criação de coisas novas e surpreendentes faz parte da criatividade humana. No mundo da animação por exemplo, Walt Disney de forma muito inteligente se apropriava de grandes idéias, como por exemplo o primeiro desenho do Mickey “Steamboat Willie” que foi totalmente inspirado do filme “Steamboat Bill” do humorista Buster Keaton, sem falar na maneira como Disney se apropriava de livros dos irmãos Grimm e outras obras da literatura infantil para produzir seus longas (muitas vezes sem pagar por isso). O que é muito curioso pelo fato da Disney ser uma grande defensora do copyright hoje.
Também é paradoxal que detentores do copyright destruam sua própria propriedade, condenando ao esquecimento lindas canções como as de Annette Hanshaw. A divulgação das músicas com a distribuição “Sita Sings The Blues” poderia renovar o interesse pela cantora e gerar um série outros lucros.
Parece haver uma visão meio dogmática e estrábica de negócios. Ao cobrarem preços proibitivos para que músicas possam ser utilizadas, impedem que sejam conhecidas, estas corporações, em vez de lucrar, dão espaço a concorrência de uma cultura livre de excelentes artistas encontrados em sites como Jamendo. Estes por sua vez, liberam o seus direitos autorais pois querem muito ser divulgados num filme, num vídeo, numa peça teatral. O que transparece neste caso, é que muito maior que a ganância das corporações, é sua burrice.
Nina Paley disponibilizou o filme no YouTube em 10 partes e esta disponível para download com várias opções de resolução e com legendas em português.
Referências
Este post gerou interessante discussão no Facebook confira
Ciber-debate, Design, Inteligência Coletiva »
por Francisco Arlindo Alves
Lembro que uns tempos atrás tentei começar a colaborar com a Wikipedia em português escrevendo um artigo sobre o FILE – Festival Internacional da Linguagem Eletrônica que é um dos mais importantes eventos de arte e tecnologia do Brasil.
Estava começando a escrever colocando as informações básicas, onde era o festival, do que se tratava, sua relevância internacional, os artistas que participavam. Meu artigo não foi aprovado porque, segundo o administrador, o festival não foi considerado um tema relevante.
O censor provalmente não entendia nada do assunto e esperasse uma fonte do Portal G1 (que tem pouca relavância para tema) no lugar de link para os trabalhos de artistas e teóricos de importância internacionacional como um Ted Nelson.
O que acontece é a ironia de termos um link para este importante festival brasileiro na Wikipédia em inglês e simplesmente não existe um verbete na versão em português .
Isso apesar da própria Wikipédia em português confirmar num artigo sobre arte interativa que na “América do Sul o maior evento é o File Festival que acontece na cidade de São Paulo no Brasil”.
———————-
Esta é uma reprodução de um comentário que fiz a um texto no Blog do Pedro Dória em que ele faz uma crítica aos censores na Wikipedia em português, que acabam desestimulando a colaboração, o que torna o ambiente pobre em contribuições. Pedro reforça o que também foi exposto há pouco tempo por Juliano Spyer no Nãozero denunciando uma mentalidade colonialista, que parece bem o que acontece neste caso do FILE.
Artigo wikipédia em inglês sobre o File Festival
[ aqui ]
Artigo sobre arte interativa que afirma a importância do FILE, em contradição do que afirmou o administrador (Espero que não apagem!)
[ aqui ]
Salada total »
por Francisco Arlindo Alves
A revista I left this here for you to read (Eu deixei isso aqui para você ler) é uma publicação que não está na internet. Não está em nenhuma banca de jornais. Não está nas livrarias. A forma de distribuição da revista é o acaso. São apenas cinqüenta exemplares distribuídos inicialmente em 25 cidades dos Estados Unidos e Canadá.
Os exemplares são deixados aleatoriamente em lugares públicos como um banco de uma praça, ou no assento de um ônibus ou num aeroporto. A revista atinge seus leitores por um encontro inesperado. E os leitores fazem a circulação (ou não) pelos espaços públicos de maneira não-planejada.
O projeto é de Tim Devin, artista da cidade de Boston, e consiste na idéia de causar uma surpresa que rompe com a rotina da nossa relação cotidiana com os espaços públicos.
A revista não envia cópias solicitadas para nenhum leitor. Somente podem receber cópias, pessoas que contribuam de alguma forma para seu conteúdo. Segundo o que o site da revista afirma, todas contribuições são automaticamente incluídas. Voce pode fazer sua contribuição também aqui.
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por Francisco Arlindo Alves
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por Francisco Arlindo Alves
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por Francisco Arlindo Alves

Nos próximos posts, começarei publicar breves comentários a respeito de 15 obras recentes sobre novas mídias ou ligadas as novas mídias que de múltiplas perspectivas (muitas vezes opostas e contraditórias) demonstram tendências, reflexões e percepções em que podemos perceber oportunidades e aspectos benéficos e ao mesmo tempo armadilhas e perigos. Em minha análise se configura a emergência de um cenário ambíguo, permeado de contradições. Novas formas de produção e de organização desta mesma produção proporcionam novas liberdades e promissoras possibilidades de emancipação aparecem na mesma medida que podemos encontram novas formas de concentração de poder e controle. Entretanto nesta série de posts não pretendo ainda observar criticamente as obras, mas apenas entender melhor os pontos de vista dos autores. Os curtos comentários a respeito das obras selecionadas que me proponho fazer aqui, são baseados na minha própria leitura como também na análise destas obras por sites conceituados (principalmente as obras muito recentes, que não tive acesso ainda).
Leia sobre os livros que já foram comentados nesta série.
Alguns dos sites que serviram como referência foram:
http://www.convergenceculture.org/weblog
http://produsage.org/
http://blog.p2pfoundation.net/
http://arstechnica.com
http://www.americanscientist.org
http://mastersofmedia.hum.uva.nl
http://www.schneier.com/blog/
http://www.nettime.org
No decorrer desta série de posts serão acrescentadas outras referências.





