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Jornais: Fim de um começo ou o começo de um fim ?

por Francisco Arlindo Alves

8 May 2009 | 351 views | | Comente no espaço ao final do texto

newspaper blackout poem
Originally uploaded by Precious Roy

Diversas publicações no mundo, como por exemplo as revistas The New Yorker e Time estão publicando artigos prevendo o fim dos jornais. Esta morte anunciada tem como um dos seus principais fatores a decadência do jornal impresso, e neste cenário pessimista o recente lançamento do novo leitor de documentos eletrônicos da Amazon, o Kindle DX, foi recebido como uma potencial tábua de salvação para um futuro improvável. Com sua tela maior, ele se adapta de maneira mais eficiente a leitura do tipo de conteúdo produzido por jornais.

Grandes publicações têm visto suas receitas caírem com a diminuição das vendas da versão impressa e baixo retorno da  publicidade de suas versões online. Como estratégia para reverter esta situação, New York Times, Washington Post, Boston Globe pretendem oferecer “gratuitamente” o Kindle aos assinantes que não puderem receber o jornal impresso onde residem. O leitor da Amazon pode  proporcionar em sua tela uma legibilidade tão boa quanto o papel impresso, por meio de sua tecnologia de tinta eletrônica sem emissão de luz. A leitura se torna menos cansativa do que nas telas dos computadores, e pode ser feita de qualquer ângulo ou sobre a luz natural. A intenção das empresas jornalisticas em valorizarem as assinaturas pode configurar uma tendência de um retorno a idéia de conteúdos fechados aos assinantes.

Esta semana o respeitado escritor e jornalista americano Gay Talese disse em entrevista na folha: “…New York Times… se encontra em uma situação econômica alarmante.. Vários erros foram cometidos ali. O principal deles foi terem aberto seu conteúdo on-line…” . A questão é se ainda é possivel de voltar atrás diante das tecnologias disponíveis hoje em dia.

Pensando no jornal impresso em termos de usabilidade no meu dia-a-dia, procuro otimizar meu tempo tentando ler o jornal, no metrô ou no ônibus ou na hora do almoço dentro de restaurantes que consistem em lugares apertados, cheios de pessoas competindo por um pouco de espaço. Mas nestes ambientes uma das coisas que mais me atrapalha no jornal são as suas dimensões. Quando o formato da publicação é o  “tablóide europeu” (Zero Hora, 25 cm x 35 cm) tudo bem, é mais fácil… mas quando o formato é standard… (Folha de São Paulo) ler um jornal se torna um grande exercício de contorcionismo, malabarismo, estratégias de demarcação de territórios e técnicas japonesas de origami.

Uma das vantagens alardeadas do Kindle DX é sua tela maior, o que chega a ser uma boa vantagem com relação a este meu problema quando comparamos seus 10 centímetros aos aproximadamente 56 centímentros do formato standard Folha de S.Paulo. (Mas espero que em breve inventem um Kindle “dobrável”)

A idéia de escrever este texto, foi inspirada na leitura de um post no blog do pesquisador Alex Primo em que ele fala de sua experiência de ler um jornal:  “…A leitura de um jornal faz parte de nossos hábitos. Gosto de ler a Zero Hora de manhã na mesa do café. Seria muito chato levar o notebook para a cozinha! E leio a Folha de São Paulo durante o almoço...”

Refletindo sobre isso, em termos do que podemos sentir ao experienciar a leitura de um jornal impresso, o Kindle pode ser uma faca de dois gumes para as empresas jornalísticas, resolve sob o ponto de vista do conforto e comodidade facilitando a leitura de conteúdos jornalísticos mais aprofundados, mas pode eliminar o que era uma vantagem e motivação de se comprar um jornal impresso, acirrando a competição entre conteúdos disponibilizados gratuitamente pelos usuários na internet e os criados pelas empresas jornalísticas. Enquanto o Kindle não disponibilizar uma interface para Web esta competição poderá ser adiada, mas isso parece uma questão de tempo até que estas telas com maior legibilidade cheguem a todos computadores e laptops e smartphones.

Sobre estas novidades tecnologicas, uma das coisas que me incomoda um pouco é ter que atravessar a cidade carregando mais uma parafernália, além do laptop e celular e outras bagagens tecnológicas. Espero que haja uma evolução, na direção da convergência em seu sentido clássico, como preconizava por Negroponte no MIT no final dos anos 1980 que vem a ser um convergir de aparelhos e tecnologias. Já a convergência em sua conceituação mais moderna é um modelo mais abrangente que atinge não só aspectos tecnológicos e econômicos mas também culturais como tem proposto Henry Jenkins. E neste contexto o jornal tradicional vai se tornando cada dia mais, um tipo de cadáver impresso frente aos gigantescos fluxos de conteúdos que se deslocam pelas redes, e o grande dilema dos jornais é encontrar um novo formato e um novo modelo de négocio que se adapte a esta nova realidade. Será este um fim de um começo ou o começo de um fim ?

Referências:

Cultura da Convergência – Henry Jenkins.
Vida Digital – Nicholas Negroponte
New Maps for Old?: The Cultural Stakes of ‘2.0′ – Caroline Bassett
Poderá o Kindle DX salvar os jornais? – Alex Primo
Jornal: o cadáver impresso – Jardel Dias Cavalcanti

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